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Foto: Divulgação
                                                          
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Pesquisador encontra presença de afro-descendentes em Itatira


Sabado, 20 de fevereiro de 2016  Atualização: 04:38

O pesquisador Vandeir Torres encontrou sinais e evidências da presença de afro-descendentes no município de Itatira. no Ceará. Vandeir ressalta que em todos os lugares de Itatira há a presença de afro-descendentes. Visitando as comunidades em cima da Serra do Machado e próximas a ela no sertão Vandeir pode perceber pelos traços fisionômicos a descendência africana ou indígena da população.
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“O que salta aos olhos não é só o fato de serem negros ou terem características nativas, mas a peculiaridade dos seus costumes, hábitos alimentares, as festas regrada a muita cachaça, confusões, a paixão pelo batuque do pandeiro, do triângulo, da sanfona e do zabumba. O primeiro elemento é notável em várias comunidades de Itatira desde os nomes dos lugares que geralmente são de plantas ou de animais nativos como Maniçoba, Oiticica, Tatajuba, Juá, Pitombeira, Trapiazeiro, Jacu, Piaba, Curimatã, Macaco, Raposa, Quati, nomes referentes as fontes de água ou riachos como Olho D`Água, Barriga, Cachoeira”, diz Vandeir,

“Alguns são descendentes de escravos que viviam nas fazendas, sítios e logradouros de Itatira, outros são filhos de negros livres que moravam em outra microrregião ou estado e que com o fim da escravidão saíram a procura de trabalho fora da região onde seus parentes foram escravos. E por ser uma área com bastante fazendas e sítios e de localização privilegiada Itatira foi receptora de muitas levas de pessoas a procura de trabalho, sendo a maioria delas formada por ex-escravos ou descendentes destes a procura de serviços e de um lugar para criar seus filhos”, diz Vandeir.

“O costume dos chás com plantas medicinais, as crenças de que o espírito do morto pode voltar, que alguns animais invertebrados trazem sorte ou simbolizam fartura tudo isso nos liga diretamente os moradores de Itatira a cultura indígena”, diz Vandeir. O pesquisador ressalta os relatos de populares que dão conta da lenda do “Buraco da Princesa” que possui fortes conotações indígenas. Muitas pessoas contam que a bisavó era descendente de índio, não sabe dizer a qual grupo étnico pertencia mas lembram que o pai ou a mãe falou. Outros falam da história de pessoas que foram pegas a dente de cachorro pelos colonizadores.

Outro indício da presença de índios nessa região são as louças de barro como fusos, panelas, potes, telhas, jarras encontradas enterradas em muitos locais da Serra do Machado ou no sertão, elas geralmente estão quebradas e isso comprova outra história de populares que segundo eles ouviram falar que os índios quando deixaram a Serra saíram quebrando tudo o que tinham construído.

“Esse costume de quebrar, incendiar, destruir seus feitos, soterrar fontes de água antes de fugir da perseguição do colonizador era prática comum nas tribos indígenas, pois era uma estratégia de luta. Um exemplo desse fato foi o grupo indígena que habitava o Pico do Jacu na Serra do Machado e quando foram perseguidos pelos colonizadores aterraram uma fonte de água que lá existe conhecida como olho d`água da onça", diz.

"Essa fonte só foi descoberta muito tempo depois porque alguns descendentes indígenas que não conseguiram escapar na fuga relataram que existia esse olho D’Água, mesmo assim o local onde ele está aberto hoje não é mesmo de antes”, diz Vandeir. O segundo elemento está presente em todas as comunidades de Itatira em umas menos e em outras mais. É o caso da comunidade Santana localizada na parte norte da Serra do Machado em que a maioria de sua população são negras ou com aspectos indígenas.

Nesta comunidade o proprietário mais antigo abrigou muitos negros que após o fim da escravidão saíram de suas antigas fazendas ou sítios em busca de um rancho e de melhorias de vida. No sítio Jacu, onde Antônio de Paula Tavares deu conta em seu inventário de 1870 de possuir 5 escravos, existem resquícios da cultura africana. A principal delas foi o costume de jogar cacete e faca. Tanto os negros quanto os brancos eram mestres nesta arte. Na cultura africana o cacete fazia parte do maculelê que segundo José, citando Balbino do Carmo Cabral, é uma dança e uma luta com música própria que sempre é um desafio a luta ou um lamento às vítimas de um massacre, é feita com pedaços de madeira logo após é substituída por facão.

É no sítio Jacu que pode ser encontrado um pilão de 12 bocas sendo 6 de cada lado do tronco de madeira que mede aproximadamente quatro metros. A mão-do-pilão mede quase dois metros e era utilizado por escravos no trato do café, na falta da bolandeira que moía o café movida por bois os escravos de seu Antônio de Paula Tavares pilavam manualmente o café.

“Os escravos de Antônio de Paula Tavares depois do fim da escravidão continuaram vivendo no Sítio onde constituíram família e hoje seus descendentes continuam morando por lá ou em sítios vizinhos”, diz Vandeir TorresAo pé da Serra do Machado, ao sudoeste, há uma comunidade denominada Laranjeira. Populares afirmam que no passado aquele lugar foi um quilombo. Nenhum estudo antropológico foi feito nesta comunidade, mas quem passa por lá logo percebe que é uma comunidade negra. Os homens têm traços fisionômicos de africanos são altos, lábios grossos e cabelos pixains. As mulheres têm traços afro-indígenas baixa estatura, pele negra e cabelos lisos. “As pessoas mais velhas desta comunidade afirmam que lá já existiu terreiro de macumba, mas não sabem dizer se atualmente existe alguém que seja adepto de alguma religião de matriz africana”, diz Vandeir.

Estes afro-descendentes que chegaram em Itatira, juntando-se aos que já se encontravam no municipio mais os indígenas que sobreviveram ao colonizador formaram uma população mestiça e trabalhadora. “Não é por acaso que com 3 anos de emancipação política Itatira já despontava entre os 5 maiores produtores de algodão do Ceará. Isso se deveu principalmente ao espírito guerreiro dos habitantes do município”, diz. Os cabras, criolos, pretos, acaboclados em minoria os brancos cantarolando enquanto trabalham, revivendo os costumes dos escravos nas lavouras de café e cana-de-açúcar, derrubam a mata, plantam, capinam e colhem o algodão, carregam as trouxas de algodão na cabeça da roça até a fazenda de lá o produto era levado para ser vendido em Quixeramobim.

A lenda do “Buraco da princesa” é mais uma prova da presença indígena na Serra do Machado de acordo com Vandeir. Reza a lenda que uma princesa vivia num buraco, que segundo populares era uma enorme gruta, quem quisesse desencantá-la teria que entrar na gruta, correndo o risco de não mais voltar. Deveria levar consigo alguns objetos que para serem arremessados em direção ao fundo do buraco. Toda vez que o objeto era arremessado a princesa aparecia pegava o objeto e se dirigia mais para o fundo da gruta, o herói deveria seguir seus passos sempre arremessando um objeto todas as vezes que não visse mais a princesa, quem conseguisse ir até o final desencantava a princesa e casaria com ela. Segundo Vandeir essa gruta existiu de fato.

“Contam que ela tinha três salas com espaço amplo. Outros afirmam que quando eram meninos costumavam brincar de esconde-esconde nas salas da gruta. Alguns amigos se reuniam pegavam os instrumentos musicais e iam tocar e dançar no interior da gruta. Depois que foi feito a pavimentação das ruas da cidade de Itatira a gruta foi soterrado, mas muitos ainda contam as histórias daquele lugar cheio de mistério”, diz Vandeir. Os Kanindé e Jenipapo fazem parte do grupo tapuia. Este termo se refere aos índios que viviam no sertão ou nas serras do Nordeste ao contrário de seus inimigos, os índios tupi, que viviam próximo ao litoral. Além dos Kanindé e Jenipapo também eram Tapuias os Anassés, Guanassés, Rerius, Paiacus, Icós, Calabaços, Quixelôs, Cariris, Jucás dentre outros.

Renomados pesquisadores da história das tribos indígenas do Ceará afirmam que os Kanindé e os Jenipapo eram parentes próximos e falavam a mesma língua. Em muitas ocasiões aparecem juntas na luta contra os invasores portugueses, em outros momentos aldeados na mesma missão. Os Jenipapos foram chamados assim devido ao costume de untarem o corpo com a tinta do jenipapo, planta típica do sertão. Os Kanindé, segundo alguns historiadores, fazem parte de um ramo dos Tararius, grupo tapuia que pertencia aos Cariris.

“Para estes pesquisadores os Jenipapos também teriam esta mesma origem. Para outros estudiosos das nações indígenas, a origem histórica da etnia Kanindé remonta ao chefe Kanindé, principal da tribo dos Janduins, que liderou a resistência de seu povo no século XVII, obrigando o então rei de Portugal a assinar com ele tratado de paz, firmado em 1692, mas descumprido da parte dos portugueses. Seus descendentes passaram a ser conhecidos como Kanindé, alusão ao chefe e a ancestralidade”, diz Vandeir.

Os povos tapuias do sertão cearense viviam pelas cabeceiras do rio Curu e pelas margens dos rios Quixeramobim e Banabuiu, defendendo suas terras dos invasores portugueses e lutando contra nações inimigas. Nestas lutas contra os invasores portugueses eles atacavam as vilas e fazendas, furtavam gados dos fazendeiros que ocupavam suas terras, tocavam fogo nessas propriedades espalhando o medo e o terror pela região.

“Um exemplo disso foi o assalto a vila de Aquiraz, por volta de 1726, que causou a morte de muitos colonos e moradores. Devido ao ataque dos índios à Vila de Aquiraz as tropas do governo acossaram os índios Kanindé e Jenipapo que fugiram para outras regiões fora do alcance das armas dos brancos. Muitos deles se refugiaram em igrejas da região e pediram proteção aos padres missionários que nada puderam fazer. Os que conseguiram fugir espalharam-se pelo sertão e um desses grupos vieram se refugiar em uma das nascentes do Rio Banabuiu, na Serra do Machado, onde hoje está o município de Itatira”, diz Vandeir.
 
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Esses tapuias não acreditavam mais ser possível viver em paz depois de tantos conflitos e tantas mortes e preferiram se embrenhar pelo sertão procurando um lugar mais isolado para viver em paz. Chegaram à Serra do Machado na primeira metade do século XVIII e possivelmente só foram desalojados no início do século XIX, com a chegada dos colonizadores portugueses. Em busca de terras férteis para plantar e criar seus gados e fugindo da escassez de água no sertão os colonos portugueses que viviam nas proximidades da Serra do Machado, nos sertões do Acaraú, de Canindé ou de Quixeramobim, subiram a serra. Os índios Jenipapo e Kanindé acostumados a lutar contra os colonos portugueses pegaram nas armas mais uma vez para defender suas terras.

A luta foi mortífera, mas as armas dos portugueses eram superiores às dos nativos que não tendo outra alternativa fugiram. “Muitos dos sobreviventes indígenas da guerra contra os colonizadores foram pegos “a dente de cachorro” e possivelmente foram escravizados por estes. Populares utilizam tal expressão se referindo a parentes distantes que só se renderam quando não havia mais possibilidade de escapar e que os colonizadores utilizaram inclusive cães para capturá-los. Os sobreviventes que conseguiram fugir se juntaram aos seus parentes na Serra da Gameleira no sertão de Canindé, outros foram mais longe e se estabeleceram no Maciço de Baturité, no Sítio Fernandes no município de Aratuba”, diz Vandeir.

Vandeir conta que nessas duas comunidades vivem famílias que assumiram recentemente sua identidade de índio Kanindé. No município de Itatira não existe nenhum grupo de pessoas que se assumam como descendentes da etnia Kanindé ou Jenipapo. Mas a herança indígena está evidente nos traços fisionômicos e nas manifestações culturais da população desse município. A Serra do Machado se insere no contexto do povoamento dos sertões de fora, feito por bandeiras pernambucanas e baianas. Estes povoadores seguiam os cursos dos rios e estabeleciam-se às suas margens. Muito deles, por falta de terras no sertão, subiam as serras e lá se estabeleciam.

Em cima da Serra supracitada a produção de café, cana-de-açúcar e algodão além da criação de gado foram a base da economia dessa região no início de sua ocupação. A lida com o gado geralmente era feita por índios ou descendentes destes, já trabalho nas lavouras eram realizado por escravos mestiços, acaboclados, pretos ou africanos. Os africanos eram poucos e geralmente eram provenientes de Angola ou do Congo, a maioria dos escravos eram descendentes de africanos comprados nas fazendas ou engenhos de Pernambuco, da Bahia ou do Rio Grande do Norte. De acordo com Vandeir, o vigor dos itatirenses para o trabalho vem de sua origem afro-indígena esses povos conquistaram seu espaço na sociedade através do trabalho, da arte, da música, danças, crenças, culinária e tantos outros fatores que ajudaram a preservar a cultura afro e indígena de Itatira.

“Ainda não foi possível identificar se houve ou não alguma irmandade do Rosário dos homens pretos como as de Sobral e da Lapa , mas já foi possível perceber em muitas famílias do sertão itatirense a devoção a nossa Senhora e o costume, típico das irmandades, de rezarem o terço, as novenas, cantar ladainhas e fazer leilões”, diz Vandeir. Vandeir pede mais valorização da cultura indígena no município de Itatira. “O mínimo que se poderia fazer era dar visibilidade e resgatar os valores culturais desses povos, não há necessidade de se estereotipar tais culturas, pois quem olhar vai perceber que somos descendentes de índios e de negros africanos”, diz Vandeir.



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