Educação HISTERIA COLETIVA

Desmaios em massa de estudantes em escola de Itatira completam 10 anos

Os desmaios não acontecem mais na instituição.

23/04/2020 02h40 Atualizada há 6 dias
Por: Itatira NEWS

Os desmaios em massa de estudantes em Itatira completam 10 anos neste ano. O caso ganhou repercussão nacional e também foi destaque em vários meios de comunicação internacional. O caso foi destaque de uma reportagem especial do programa "Domingo Espetacular", da Rede Record, e ganhou reportagem também no "Jornal Hoje", da Rede Globo e em diversos jornais de grande circulação no Brasil como "O Globo", "Folha de S.Paulo" e vários sites internacionais. Dez anos depois, os professores, diretores, funcionários, pais de estudantes e os alunos que passaram pela histéria coletiva e desmaios em massa de estudantes na Escola Municipal Eduardo Barbosa, no distrito de Cachoeira, no municipio de Itatira, conseguiram superar o trauma. Os desmaios não acontecem mais na instituição e os moradores e a escola agradecem a ajuda que receberam de pessoas durante aqueles dias difíceis de 2010. "Foi um trauma", é um assim que uma das ex-estudantes que passou pelos desmaios em massa de alunas na escola descreve os dias daquela época. "Foram momentos muitos ruins. Nós lutamos muito para esquecer e superar tudo aquilo. Mas acho importante hoje todos saberem que eu e todos os que passaram por aqueles desmaios estão bem. E também acho importante agradecer todos que nos ajudaram naqueles dias", diz uma das ex-estudantes que passou pelos desmaios.

Depois dez anos anos, as estudantes agora conseguem tratar do assunto e se dizem feliz por terem vencido. Hoje, uma das estudantes que conversou com o Itatira NEWS afirma que mora em Fortaleza, onde tem família e cursou faculdade. Ela, assim todas as ex-estudantes, não apresentam mais os sintomas. Uma professora que trabalhava no colégio quando o fenômeno ocorreu diz que hoje nenhuma estudante da escola passa pelo fenômeno e quanto às alunas que na época apresentaram os sintomas ela ressalta que todas estão curadas e vivem bem. "Todos os alunos e alunas concluíram o ensino médio. A maioria deixou o distrito de Cachoeira e as comunidades onde moravam para irem trabalhar em Fortaleza ou Canindé. Muitas delas hoje são casadas e têm famílias. Quero aqui agradecer fortemente o apoio de todos que nós ajudaram e dizer que nós vencemos àquilo", disse a professora ao Itatira NEWS.

A profissional de educação é outra que, depois de dez anos dos desmaios em massa de estudantes, consegue neste momento falar novamente sobre os acontecimentos. "Sem dúvida aquilo foi um trauma para todos nós. Não somente as estudantes que sofriam com àquilo, mas todos os funcionários e a comunidade em si ficou abalada e precisou de tempo para se recuperar de tudo", conta. A professora socorreu na época várias alunas e hoje diz que tem mais forças para olhar para o prédio da escola e entrar nas dependências do estabelecimento. "Antes era muito difícil para nós conviver na escola. Tanto que mesmo após o fim do fenômeno, ainda continuou sendo muito difícil esquecer tudo que ocorreu", diz. "No entanto, hoje nós podemos dizer que superamos tudo. Graças a força em Deus, de todos os profissionais que nós ajudaram, hoje podemos dizer que as estudantes e todos nós superamos aquilo", disse a professora ao Itatira NEWS.

Ela lembra como foram aqueles dias ao ver várias estudantes desmaiarem e tentando junto com vários funcionários e moradores da localidade socorrer as alunas. "Foi constrangedor. Foi algo que não estávamos preparados, pois estávamos lutando com algo que nunca ocorreu. Não sabíamos como lidar com àquilo, mas tivemos o apoio de várias pessoas. Naqueles dias, quando os desmaios ocorriam, foi uma fase muito difícil. Eu tive, por exemplo, vários pesadelos e ninguém conseguia explicar ao certo o que ocorria. Surgiam várias explicações, mas agradeço a todas as pessoas que mim ajudaram e que nós ajudaram", disse a professora ao Itatira NEWS. "Nossa fé em Deus e todos nós acreditamos muito em Deus e isso nós fez prosseguir", diz. Outra professora que conversou com o Itatira NEWS afirma sentir-se bem com o fim dos desmaios. "Os desmaios pararam e as estudantes estão bem", disse acrescentando que, na época, passou seis meses fazendo acompanhamento psicológico para tentar esquecer e lidar com os desmaios de estudantes. "Nessa época eu me afastei da escola porque eu não tinha condições de ficar la. Eu não conseguia e não queria ir para a quadra da escola. Tive acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Foi muito difícil, mas eu consegui superar tudo aquilo", disse a professora ao Itatira NEWS. "Hoje a escola está muito bem e não temos esses desmaios", diz a diretora.

 

Uma senhora que mora em frente a escola municipal onde ocorreram os desmaios em massa de estudantes confirma que os casos acabaram há muito tempo. "Eu me lembro daqueles dias. Mas nunca mais houve desmaios e tudo aquilo não aconteceu mais", diz. Um dos homens que era funcionário da escola, conta que na época ajudou a socorrer as estudantes, e também confirma que os desmaios cessaram. "Eu me lembro como se fosse hoje. Mas não aconteceu mais", diz. "Tem um rapaz que ainda mora aqui na Cachoeira e ele, por exemplo, nunca mais teve esses desmaios", diz. A mãe de dois estudantes que desmaiaram na escola também diz que os alunos não tiveram os casos. "Tenho dois filhos que desmaiavam, mas eles não desmaiam mais", diz. "Agradeço a Deus e todos que nos ajudaram naqueles dias difíceis. Estamos muito felizes hoje e conseguimos superar tudo. Nós conseguimos vencer o mal", diz a mãe.

 

A histeria coletiva

 

Em junho de 2010, estudantes da Escola Eduardo Barbosa, no distrito de Cachoeira, em Itatira, entraram numa espécie de surto coletivo e afirmaram ver um espírito dentro da escola. As estudantes desmaiavam, tornavam-se agitadas e agressivas, e quando retornavam ao normal diziam não se lembrar do que ocorreu com elas. Antes de desmaiarem, as estudantes afirmavam terem visto um espírito. Os desmaios em massa de alunas e o número de casos era na ordem de dezenas por dia, não havendo, porém, precisão do número de estudantes que tombavam. O período de pico acontecia ao cair da tarde. Tratava-se de uma série de desmaios nas alunas locais.

 

As estudantes afirmam que após verem um espírito, sentiam dores musculares, de cabeça, sufoco no sistema respiratório, no peito, palidez, calafrio, dificuldades para caminhar, náusea, paralisia muscular, aumento nos batimentos do coração, pressão alta, inquietação e medo de morrer. A partir dai elas não se lembravam do que elas mesmas faziam. Testemunhas relatam que após isso as estudantes tornavam-se muito agressivas, não reconheciam amigos ou parentes, mudavam o tom da voz e viravam os olhos. As estudantes, após o desmaio, não perdiam os sentidos, completamente. Ou seja, não ficavam inconscientes. Elas falavam, apesar de terem certa dificuldade de respiração, se mexiam e gritavam. Como eram dezenas de estudantes em surdo ao mesmo tempo, as aulas precisavam ser suspensas e funcionários e professores precisavam socorrer as estudantes para o hospital São Francisco, de Canindé.

 

As estudantes e moradores diziam que tratava-se de espíritos. Uma estudante de 15 anos de idade, disse que “estava sozinha a caminhar da sala em direção ao portão durante o intervalo. De repente viu muita gente a cair e algumas colegas estavam a chorar”. Ficou assustada e perdeu a audição e a visão. "Tudo ficou escuro. Comecei a sentir formigueiro nas mãos e nas pernas. Tentei aguentar-me, mas depois perdi os sentidos e caí. Quando recuperei, continuava com formigueiro e sentia muito calor na cara. Agora tento acostumar-me e ser forte. Os colegas falam muito de um espírito”, disse na época outra estudante.

 

“Em outro dia vi cerca de 20 alunas a cair. Fui ajudar e aguentei-me bem, mas de noite em casa passei mal. Fizeram orações para mim e fiquei bem. Falava-se de maus espíritos”, disse na época outra estudante. “Estávamos na aula quando alguns colegas gritaram que haviam desmaios na escola. Saímos todos e de repente vi colegas no chão. Comecei a ter falta de ar e desmaiei", diz outra estudante. "As pernas prenderam e cai no pátio. Doía-me a cabeça e não conseguia ouvir nem ver mais. Quando recuperei comecei a ouvir que há um espírito na escola. De lá para cá, ando com medo e às vezes aparecem colegas a dizer que viram um espírito”, disse na época uma estudante.

 

Em 2010, os moradores diziam ser chocante ver alunas a cair pela escola. Quando menos se esperava, uma aluna perdia os sentidos e caia. Enquanto se prestava assistência à primeira vítima, uma outra, duas ou três colegas podiam estar a desmaiar em diferentes pontos do recinto escolar, obrigando os funcionários, professores e outros membros da comunidade a desdobrarem-se para acudir as alunas. Com os desmaios sistemáticos de parte dos seus alunos, moradores próximos a escola diziam estar cansado de carregar as vítimas de desmaios e defendiam ferozmente o fechamento da escola e o envolvimento de pastores, padres, médicos, psicólogos, parapsicólogos e psiquiatras para a expulsão do espírito que as estudantes narravam ver.

 

A psicóloga do município de Itatira disse na época "que não via razão nenhuma para um suposto espírito estar por detrás dos desmaios”, diz a psicóloga. "Acredito que seja mais questão emocional, problemas típicos de adolescentes", disse na época a psicóloga. O diretor do hospital de Canindé disse em entrevistas a veículos de comunicação da época que as quedas em massa de alunas devem-se ao medo, ansiedade generalizada e manifestações de pânico, não existindo problemas físicos das alunas. O relatório foi feito por médicos, e demais profissionais da área de medicina, incluindo enfermeiros que atenderam as estudantes em Canindé. O diretor do hospital disse que o que estava acontecendo era uma associação dos desmaios sucessivos e em massa a uma psicose contínua. O diretor destacou que a mente humana é algo muito complexa, sendo necessário apurar-se o que poderia estar a gerar aqueles efeitos psicossomáticos. Contudo, adiantou que pode não haver nenhuma doença e os desmaios em massa estariam a ser gerados por uma espécie de contágio, em que uma aluna, vendo a colega a cair, também caía.

 

O que dizem os especialistas

 

Segundo o psiquiatra Adalberto Barreto, da Universidade Federal do Ceará, e o padre Hélio Correia de Freitas, que é parapsicólogo e acompanhou o caso no local, os estudantes podem ter sofrido um ataque de histeria coletiva. Histeria coletiva é um distúrbio psicológico em que um grupo de pessoas passa a ter, ao mesmo tempo, um comportamento estranho ou adoecer sem uma causa aparente. Os surtos de histeria coletiva, também conhecida como doença psicogênica de massa, são mais freqüentes em grupos fechados, como alunos de uma mesma escola ou trabalhadores de uma empresa, embora também acometa a população em geral.

 

A doença faz a galera ficar mais ansiosa e perder o controle sobre atos e emoções, além de turbinar os sentidos, como tato, olfato, paladar etc. Mesmo que tudo isso seja coisa da cabeça, os "histéricos" chegam a apresentar sintomas como náusea, tontura, fraqueza, desmaio e falta de ar. Várias ocorrências de histeria coletiva foram registradas ao longo da história. Em 1518, em Estrasburgo, hoje no território da França, centenas de pessoas começaram a dançar de forma descontrolada. A epidemia, batizada de "Praga da Dança", acabou matando muitos de exaustão. Outro caso mundialmente conhecido ocorreu em um colégio de freiras no México, em 2007. Lá, cerca de 600 alunas começaram a apresentar dificuldades para andar. Depois de muitos exames físicos, a conclusão foi de que as regras rígidas da escola acabaram desencadeando a histeria coletiva.