Itatira CORONAVÍRUS

A dor de famílias em Itatira proibidas de se despedirem de seus entes queridos

É um sofrimento angustiante para alguém que acabou de ver um ente querido morrer e não poder se despedir.

09/05/2020 10h21 Atualizada há 2 semanas
Por: Itatira NEWS

Quando alguém que você ama morre, dizer adeus pela última vez significa muito. Mas o coronavírus está roubando dos itatirenses a chance de se despedirem de seus entes queridos. Isso tem agravado a tristeza de diversas famílias em Itatira. Acariciar a bochecha de um ente querido pela última vez, segurar sua mão e vê-lo parecer digno pela ultima vez. Não ser capaz de fazer isso está sendo muito traumático para muitos itatirenses. É um sofrimento angustiante para alguém que acabou de ver um ente querido morrer e não poder se despedir. Nos últimos dias, famílias de Itatira tiveram que passar por dois sofrimentos: a perda de um ente querido e a proibição de não poder abrir sequer o caixão para se despedir.

"Se você chegar com um parente em um hospital com sintoma grave de gripe, primeiro, o hospital isola você de seu ente querido e não permite que ninguém se aproxime. Antes de seu parente morrer, você já é impedido de ver seu familiar. Isso arrasa qualquer um”, diz Auxiliadora Tavares, que mora no distrito de Lagoa do Mato, em Itatira, e teve que enterrar um irmão com suspeita de coronavírus sem direito de acompanhá-lo no hospital e sem poder realizar velório. “Não deixaram a gente ver ele nem no hospital. Depois que comunicaram a morte dele, não deixaram abrir o caixão. Não deixaram fazer velório. Levaram o corpo direto para o cemitério. Meu irmão era apenas suspeito de ter o vírus e somente depois que o corpo dele foi enterrado foi que veio o exame atestando que ele não tinha o vírus”, diz Auxiliadora.

Tanto para casos confirmados como suspeitos, o procedimento é o mesmo: a família é proibida de acompanhar o paciente no hospital e, em caso de morte, é proibida de abrir o caixão, de realizar velório e o corpo precisa sair do hospital diretamente para o cemitério onde deve ser sepultamento sem presença de grande quantidade de pessoas e sem direito a orações ou missas. Em dois casos que ocorreram no município de Itatira, as pessoas foram sepultadas como casos confirmados para coronavírus. Mas em outros dois casos, quem foi enterrado era apenas “suspeito” de ter o vírus, tendo em vista que os resultados dos exames ainda não haviam sido emitidos. “É difícil você sequer poder ver o corpo de sua mãe”, disse um homem que perdeu a mãe recentemente e teve o corpo dela enterrada como suspeito de ter o vírus no município. “Somente depois que o corpo de minha mãe foi que o exame foi divulgado mostrando que ela não tira o vírus”, diz o homem.

Uma lei estadual de emergência da Justiça do Ceará proibiu funerais no Estado para impedir a propagação do vírus. Isso é inédito para um Estado com valores católicos tão fortes. Os itatirenses não têm escolha a não ser obedecer. O Hospital Geral de Fortaleza – HGF, onde o irmão de Auxiliadora estava internado, informou ao Itatira NEWS que as visitas são proibidas porque o risco de contágio é muito alto. E a regra vale tanto para casos suspeitos como confirmados. Já a Secretaria de Saúde do Ceará informou ao Itatira NEWS que o paciente não transmite o vírus após ter morrido, entretanto, o vírus ainda pode sobreviver nas roupas por algumas horas. Isso significa que os cadáveres estão sendo selados imediatamente para evitar que o vírus nas roupas se espalhe e contamine mais pessoas. "Muitas famílias nos perguntam se podem ver o corpo uma última vez. Mas é proibido", disse ao Itatira NEWS um agente funerário de Itatira que trabalha em uma funerária local. Segundo o funcionário da funerária, os mortos não podem ser enterrados com suas roupas favoritas e mais elegantes. Em vez disso, eles usam um traje hospitalar. "Não podemos vesti-los, não podemos pentear seus cabelos, não podemos maquiá-los. Não podemos prepará-los para parecerem bonitos e em paz. É muito triste”, disse o funcionário da funerária ao Itatira NEWS.